O que a bisa foi fazer na igreja – uma história de fé e resiliência

Passos para a superação

Uma filha de dois meses (minha avó), três outros filhos maiores e uma viúva de 30 anos foi o que o meu bisavô deixou quando morreu aos 33 anos. Anna C., minha bisavó, voltou a morar com a sua mãe e uma irmã solteira e buscou ganhar o sustento dos filhos dando aulas de economia doméstica.

A mãe dela ajudava a cuidar dos netos, apesar de lutar com problemas de saúde. A irmã tinha o que hoje é chamado de necessidades especiais. Anna C. precisava providenciar o sustento para esta família de 7 pessoas. Passaram muitas dificuldades.

O que fez da Anna C. alvo de críticas na família foi ela passar a frequentar muitos cultos na igreja. Naquela época de grande incerteza e dor ela se refugiou na fé para suportar os desafios de criar os filhos e sustentar a família.

Para que será que ela tanto ia na igreja? O que ela encontrava lá?

No livro autobiográfico de Leanne Payne, que ensina sobre a cura da alma pela oração, Leanne diz que a ordem litúrgica, isto é, os passos tradicionais do culto cristão, comum ou semelhante em várias denominações cristãs, têm uma função curativa e restauradora.

Froma Walsh, uma pesquisadora dos processos que constroem a resiliência, fala nas crenças como o coração e a alma da resiliência. Ela afirma que os ritos e a comunhão da experiência de fé e da espiritualidade contribui para fortalecer a resiliência.

Na definição dela:

Resiliência é “a capacidade de se renascer da adversidade, fortalecido e com mais recursos. É um processo ativo de resistência, reestruturação e crescimento em resposta à crise e ao desafio”

(Walsh, 2005)

O que podemos encontrar na liturgia do culto e no contexto da vivência religiosa que poderia ter fortalecido Anna C.? E como entendemos isto com base nos achados da psicologia contemporânea? Permita-me uma liberdade criativa em tentar reconstruir o que pode ter-se passado na vida da minha bisa, que tanto visitava os cultos da igreja.

Superando desafios na prática:

 

Como o culto cristão apoia a resiliência – vista pela experiência de Anna C.

 

1. Recepção e acolhimento

Emmy Werner e Ruth Smith foram duas americanas que desenvolveram pesquisas no Kauai (Hawai), em que elas, durante 32 anos acompanharam um grupo de 550 pessoas.

Inicialmente com 2 anos, todos estes viveram numa situação de pobreza extrema e cerca de um terço também eram sujeitas a separação dos pais, problemas de saúde mental na família, alcoolismo, ofensas sexuais ou/e violência familiar.

Apesar da multiplicidade dos problemas as pesquisadoras concluíram que 80% destas pessoas se desenvolveram bem.

Um fator que todos estes indivíduos resilientes tiveram em comum foi que cada um deles contava com a aceitação incondicional de pelo menos uma pessoa significativa, isto é, uma pessoa com a qual cultivava uma amizade, um relacionamento importante.

Froma Walsh identifica como um dos processos de resiliência a valorização dos relacionamentos interpessoais, isto é, a percepção de como são preciosos os relacionamentos com os familiares e amigos, junto dos quais buscamos apoio mútuo.

Ela também fala da importância de nos sentirmos pertencentes a um grupo de pessoas e da mobilização da rede social de apoio.

Ao chegar na igreja luterana naquela noite fria, cansada do trabalho e preocupada em como conseguiria roupas adequadas para os filhos para o inverno que se aproximava, Anna C. encontrou amigos. Uma destas era uma senhora cujos filhos já estavam crescidos. Ela parecia sempre ter tempo para ouvi-la. Anna C. sentou-se do lado dela e falou sobre os acontecimentos do dia. Mesmo  a amiga nem sempre concordando com ela e às vezes chamando a sua atenção, a Anna C. se sentia bem na companhia dela. Sabia que sempre seria bem recebida e aceita. Sentia-se à vontade para compartilhar suas preocupações e encontrava apoio.

1. Prelúdio

Um dos processos-chave da resiliência identificado pela Walsh, foi a de encontrar coerência nas crises, poder percebê-las como administráveis e vê-las como parte de uma fase que passaria.

Ao som majestoso do órgão, o culto iniciava, e no prelúdio Anna C. encontrava uma janela no seu dia atarefado para aquietar-se, certamente um momento raro para uma professora e mãe de quatro filhos. 

Naquele momento de reflexão e preparação para o encontro com Deus no culto, ela tinha a oportunidade de mudar o foco dos seus problemas para a grandeza de Deus. As circunstâncias da vida reassumiam suas devidas proporções.

Aquele que tinha dado roupas para os lírios do campo, certamente poderia dar conta de vestir os seus filhos. E ela sabia tricotar meias de lã grossas para eles forrarem os sapatos no frio.

3. Confissão dos pecados e declaração do perdão divino – também estendido aos outros

Assumir responsabilidade pelos próprios sentimentos e comportamentos, fazem parte do que Walsh entende como expressões emocionais abertas, outro processo-chave da resiliência, de acordo com ela.

Esperança, por outro lado, na classificação que ela fez, faz parte de um olhar positivo, igualmente fortalecedora da resiliência.

Anna C. sabia que às vezes falhava como mãe. Ela se lembrava nitidamente do momento daquela manhã em que a paciência com o filho lhe faltou e como as palavras se tornaram mais ásperas do que planejara.

Ela se ressentia das alunas,  pouco concentradas no aprendizado e as invejava a despreocupada imaturidade de quem ainda não tem fardos para carregar. 

Tudo isso ela pôde entregar ao pé da cruz e receber a graça do perdão imerecido, mas total. Mais leve, ela respirou fundo. Mantendo-se bem perto de Deus, Ele iria fazer amadurecer nela os frutos do espírito; mansidão, domínio-próprio… 

Mas a graça e a paz não poderia ser contida apenas nela. Por mais que este sentimento não fizesse qualquer sentido racionalmente, ela se sentia irritada com o marido falecido.

Ela se ressentia dele por morrer inesperadamente,  e por tê-la abandonado numa situação tão delicada. Ao longo de vários meses ela tinha liberado perdão repetidamente – e continuaria até a raiva se transformar em saudade.

4. Leitura de passagem bíblica e sermão

Uma outra forma de fortalecer a resiliência, de acordo com Walsh é afirmar os valores, propostas e objetivos de vida como parte da espiritualidade. Isto implica em pensar sobre o que realmente importa, reavaliar o que estamos aqui para ser e realizar e confrontar o que é possível com a aceitação do que não pode ser mudado.

Junto com toda a congregação Anna C. ficou em pé em sinal de reverência diante da leitura da Bíblia.

A leitura foi do Sermão do Monte. O pregador assumiu o púlpito e levou a congregação a refletir sobre a sua responsabilidade de ser sal e luz, de agir e se posicionar para fazer a diferença no contexto em que Deus os tivesse colocado.

Anna C. pensou na filha. Tão miúda, ela parecia sumir nos vestidos antigos da irmã mais velha. Como poderia fazê-la sair do casulo de timidez que parecia ter sempre em sua volta? Se o pai estivesse aqui, ele saberia brincar com ela e fazê-la se libertar do casulo.

Anna C. temia ter estado ocupada demais para a filha caçula. Quando chegasse em casa a pegaria no colo para ler um dos contos de fada daquele livro com ilustrações coloridas que ganhara da família do falecido.

5. Hinos intercalando a cada passo

O Museu de Ciências Tom Tits Experiments fora de Estocolmo, tem uma demonstração que aponta  que 15 minutos de música é capaz de transformar o nosso estado emocional. O tipo de música naturalmente influencia as emoções que surgem.

O olhar positivo mencionado na pesquisa de Walsh, como favorecendo a resiliência, pode nascer da própria música mas também da mensagem da mesma. A perseverança ela vê como outro viés deste olhar positivo.

O órgão soava novamente. A melodia era um amigo de longa data. O hino antigo que Anna C. conhecia desde criança afirmava: 

“Cada momento me guia Senhor, Cada momento dispensa favor, Sua presença me outorga vigor, Cada momento sou teu, ó Senhor!”.

(https://www.youtube.com/watch?v=CtLHUUCz0C8)

Ela se lembrou da passagem bíblica que lera de manhã: “Tudo posso Naquele que me fortalece.” Paulo estava falando sobre como ele tinha aprendido a ficar satisfeito, independente de ter pouco ou muito e a suportar situações difíceis sem abrir mão da sua tarefa de anunciar o evangelho. 

Certamente Cristo poderia ajudá-la a perseverar, assim como Paulo, a seguir na sua tarefa de cuidar e educar os seus filhos, apesar de tudo. Ele estaria sempre ao seu lado.

6. Confissão de fé

O rito, como a liturgia do culto cristão, nos traz a experiência de algo contínuo, estável e seguro. Walsh diz que a sensação de estabilidade trazida pela continuidade e pelas rotinas, como o rito litúrgico, apoia a resiliência.

Ela recitou a confissão de fé em uníssono com o restante da congregação.

Mais uma vez, como tantas vezes antes, firmou na sua mente que Deus, o Criador dos céus e da terra, que tudo deu ao entregar o seu filho para morrer em seu lugar e que enviou o Espírito Santo para a consolar, estaria com ela todos os dias.

7. Dedicação, louvor, agradecimento

A confiança na superação das dificuldades, a visualização de novas possibilidades, assim como o apoio mútuo na rede social de apoio, são atitudes que Walsh identificou como construtores da resiliência.

Otimismo, olhar positivo ela enfatiza como um dos pilares da resiliência.

Cantavam mais um hino.

“Que segurança, sou de Jesus…”

(https://www.youtube.com/watch?v=zumqtCp855A )

A música a atravessava como uma cascata de água. A tensão nos seus ombros começou a se desfazer e ela passou a olhar as pessoas em sua volta. 

Ela viu o rapaz que perdeu a mão num acidente na madeireira há alguns meses e agradeceu por ela ainda ter ambas as mãos e poder trabalhar.

Curioso, ela pensou, agora que ele tinha perdido a mão direita o pai dele finalmente o tinha autorizado a continuar os estudos. Ele que há tanto tempo tinha implorado com o pai para liberá-lo de levar adiante a madeireira. O rapaz cantava de todo o coração.

8. Intercessão, Ofertório e a Oração Pai Nosso

Ao compartilhar um pedido de oração é possível falar dos nossos sentimentos, ao orar pelas necessidades de outras pessoas colocamos as nossas dificuldades em perspectiva, ao ofertar e compartilhar combatemos a tendência de nos preocupar em ter o suficiente e em vez disso nós nos sentimos capazes de ajudar outros.

Todos estes atos estão na mesma linha dos comportamentos que Froma Walsh detectou como fortalecendo a resiliência.

Ajoelhavam para a intercessão. No banco lá na frente, a direita, estava a senhora Rute que vendia ovos na feira. Ela parecia ter envelhecido mais depois de seu único filho ter partido para tentar a vida nas Américas. “Do que posso reclamar? Eu ainda tenho todos os meus filhos comigo” Anna C. pensou silenciosamente e fez planos para convidar a senhora Rute para passar a véspera de Natal com eles. Não teria fartura, mas tinha espaço em volta da mesa e as crianças as divertiriam com suas brincadeiras. 

Na hora do ofertório ela encontrou a moeda que trouxera para este momento e deu graças a Deus por pertencer aqueles que poderiam dar.

Ao orar o Pai Nosso, “…o pão nosso de cada dia nos dai hoje…” Anna C. constatou que Deus jamais tinha falhado na provisão.  A sua parte era trabalhar e confiar, um dia de cada vez, descansando no poder de Deus. 

10. Comissionamento e Bênção apostólica

Esta parte da liturgia é um encorajamento para sair no mundo para fazer diferença, servir e transformar a realidade no que está ao nosso alcance. A Bênção apostólica nos lembra de que Deus nos acompanha.

Trata-se de iniciativa e coragem, mais uma vez confirmando os laços que unem a comunidade de fé e todos estes são características descritas como construtores da resiliência

No encerramento do culto Anna C. fechou os olhos na leitura da benção e apertou a mão da amiga ao lado. Esta apertou a mão de volta.

Todo o peso que ela trouxera para a igreja tinha caído dos seus ombros. Ela se via parte de uma história muito maior.

Sabia que do seu lado ,cada um dos seus irmãos, também estavam enfrentando as suas lutas. Juntos formavam o corpo de Cristo para continuar a obra de Deus na terra. Ela sabia que a sua tarefa mais importante eram aqueles quatro lá em casa.

Na última estrofe da bênção ela se apressou para sair. As crianças já estariam indo para cama e se ela chegasse em casa rapidamente poderia ainda encontrá-las acordadas. 

 

Gostou da história da Anna C.? Que importância o culto cristão tem tido na sua vida? Você acredita que este exercício da fé tenha lhe provido recursos para enfrentar e superar os desafios? Deixe o seu comentário aqui em baixo.

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