Parentes – cultivando relacionamentos de respeito com limites saudáveis

Cultivando o jardim dos relacionamentos

Eu admiro jardins bem cuidados. A obra prima de um jardineiro zeloso, é um espaço encantado onde o lugar de cada planta foi cuidadosamente pensado.  Ele levou em conta a necessidade de sol, a qualidade de solo, a região climática e a umidade disponível para cada espécie que introduziu.

Ele cria um equilíbrio adequado entre o que é natural da região com o que é possível cultivar. As plantas rasteiras, as arvores frutíferas, as flores e os arbustos, tudo fala do trabalho incansável de quem pensou em todos os detalhes. Sensível e perceptivo a cada necessidade, o jardineiro cuida de manter esta beleza com seu trabalho consistente e regular.

Criar relacionamentos próximos e de respeito em família e com os parentes exigem um cuidado semelhante ao do jardineiro. O trabalho exige atenção às necessidades das pessoas, às mudanças na vida de cada um e consciência dos limites e do que é possível e viável.

Intempéries no relacionamento entre parentes

Na nossa vida em família e nos relacionamentos com os nossos parentes: pais e sogros, tios e tias, irmãos e cunhados, primos, avôs e todos aqueles, que mesmo sem laços de sangue, nós consideramos parte da nossa família, às vezes somos pegos de surpresa por um contratempo. Uma “chuva de vento” pode ameaçar tudo aquilo que cuidamos com tanto orgulho. Aparece sem dar avisos e causa grandes estragos.

No relacionamento com parentes, esta chuva pode ser o diagnóstico inesperado de uma doença grave ou a perda de um emprego. Pode também ser a revelação de um erro, uma falha de caráter ou de julgamento que traz prejuízos para o restante da família.

As ervas daninhas dos relacionamentos com os parentes

Outros desafios, parecem que sempre estiveram conosco. Mesmo que tenhamos tentado arrancar certas dificuldades nos nossos relacionamentos, basta um descuido para nascerem de novo, como uma erva daninha de raiz profunda.

Estas ervas daninhas podem ser o hábito de dizer as coisas “na lata”, sem pensar, sem cuidado e respeito. Pode ser fazer promessas que não temos intenção de cumprir ou fingir estarmos ouvindo quando nosso pensamento está em outro lugar.

Pragas que assolam a convivência com os parentes

Quando negligenciamos os cuidados diários ou nos tornamos insensíveis à necessidade de cada um, por algum tempo, podem aparecer pragas. Inicialmente difíceis de detectar, elas destroem silenciosamente, sugando a força vital e comprometendo a saúde das plantas. No relacionamento com parentes estas pragas podem ser o isolamento gradual, o distanciamento e a indiferença.

Locais que dificultam o cultivo de bons relacionamentos entre parentes

Algumas circunstâncias oferecem maiores dificuldades para o cultivo. Os locais úmido, com terra barrenta e sombra ou os arenosos e secos com sol escaldante, ambos exigem cuidados precisos e atenção. Da mesma forma os relacionamentos com os parentes se tornam mais desafiadores em algumas situações.

A convivência no mesmo espaço físico de um casal recém-casado com os pais/sogros, a distância física de parentes que moram em estados ou até países diferentes, a necessidade de filhos adultos de receber favores contínuos dos pais em termos econômicos ou no cuidado com os netos; todas são situações em que o cultivo dos relacionamentos enfrenta desafios. A estas, se acrescenta ainda situações de uso de entorpecentes, irresponsabilidade e descontrole financeiro, entre outros.

Cada situação é única, mas existem condições básicas que sempre favorecem o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis. O que um solo rico em nutrientes, sol e água na medida certa e podas regulares são para as plantas, isto são estas práticas para os relacionamentos com os parentes.

 

Superando desafios na prática:

 

Cuidados contínuos para cultivar bons relacionamentos com pais e sogros, avôs, tios e tias, primos e irmãos, cunhados, sobrinhos e netos

1. Respeite sempre, inclusive quando aparentemente não merecem o seu respeito

Quando se trata do relacionamento entre filhos adultos e seus pais, não cabe mais aos pais exigir obediência destes filhos. Os pais devem saber que o filho adulto, agora deve tomar as suas próprias decisões. Os pais neste caso, podem dar a sua opinião, quando esta for solicitada ou num momento oportuno, sem usar de manipulação para dar força aos seus argumentos. Os filhos, fazem bem em ouvir e considerar os conselhos dos pais, mas quando preciso for, podem tomar decisões que contrariam os desejos dos pais, porém sem utilizar isto para demonstrar afronta.

O respeito é expresso pela consideração e atenção dada.

Ouvir atentamente uma pessoa e dar valor ao que ela traz é uma forma importante de demonstrar respeito. Isto se aplica tanto ao convívio com os idosos, quanto na interação com as crianças. Nos casos de violência contra crianças é muito comum que quando a criança denuncia o que está acontecendo; os adultos não dão ouvido ao que ela diz.

Algumas famílias prezam pela forma de tratar os mais velhos como Sr e Sra ou no hábito antigo de pedir e dar a bênção. São formas de mostrar respeito, porém, se não forem acompanhadas por atitudes coerentes, estes hábitos não têm significado algum.

A palavra respeito na sua origem do latim, significa “olhar outra vez”. Então antes de falar: olhe novamente para a pessoa com a qual está falando e considere o que ela representa na sua vida, considere o seu valor como ser humano, leve em conta qualquer vantagem ou favor que ela tenha te dado, em algum momento da sua vida, pergunte-se como gostaria de ser tratado se estivesse no lugar dela.

2. Demonstre gratidão, mesmo se não gosta de precisar receber ajuda

Muitos se esforçam por ensinar aos filhos noções de civilidade básica, como dizer por favor e obrigado, mas sentem dificuldades em expressar gratidão quando se ressentem por precisar receber ajuda de parentes. É importante perceber que este ressentimento é seu e não é relacionado à forma como os seus parentes te ajudam.

Se você pede um favor, a ajuda voluntária e não recompensada de alguém, não cabe colocar defeito na forma que esta pessoa pode te ajudar. Lembro-me da história de uma avó que foi solicitada para cuidar do neto numa tarde. A avó chegou e instalou-se na sala deixando o neto de dois anos livre para brincar. Daqui pouco a avó cochilou e foi acordada pela filha quando ela chegou em casa e a questionou sobre o paradeiro do neto. O neto não se apresentou e a aflição da avó e da mãe resultou em trocas calorosas. Logo depois, o neto foi encontrado, absorto em sua brincadeira num vaso grande de planta. As suas mãozinhas, o rosto e sua roupa estavam enlameados, mas era evidente a felicidade dele em poder cavar e fazer bolinhos na terra.

Se você depende da ajuda de seus pais ou sogros para cuidar dos seus filhos, por favor permita  que eles cuidem deles do jeito deles e aceite que isto é como as coisas são. Você pode deixar recomendações; mas se não forem cumpridas: não se irrite com o cuidador.

A responsabilidade de cuidar é sua, não deles. E se eles estão fazendo o seu melhor, mais do que isto não deverá ser cobrado deles.

No caso em que, você não esteja satisfeita com a forma que o seu parente cuida do seu filho, independente do motivo, e especialmente se você teme pela segurança dele, você pode e deve procurar por outra pessoa que possa assumir a responsabilidade de cuidar do seu filho. Mas cuide para agradecer o parente que até então esteve encarregado deste cuidado. Lembre-se que ele/ela poderá ao mesmo tempo sentir alívio por não precisar mais cumprir com esta tarefa e ao mesmo tempo sentir falta do contato diário com seu filho. Facilite para que este relacionamento de afeto seja mantido, mesmo que o contato não seja tão frequente.

3. Limites claros tornam os relacionamentos arejados e fortes

Colocar limites claros é essencial para manter bons relacionamentos. Ajuda financeira entre avôs e pais é uma situação delicada que exige cuidado quanto aos limites. A maior parte das dificuldades podem ser evitadas se forem evitadas as cobranças e insistências.

Quando um filho se torna adulto pressupõe-se, e com razão, que ele agora é responsável pelo seu próprio sustento. Os pais podem continuar dando presentes em épocas festivas e ocasiões especiais, mas em geral devem facilitar a passagem do filho para a fase adulta, permitindo que ele ajude nas despesas em casa, no caso dele ainda residir com os pais, ou confiando na sua capacidade de se sustentar, se já tiver constituído sua própria residência.

Da mesma forma, o filho não deve abusar da boa vontade dos pais em estender a ele confortos e privilégios que eles tenham conquistado. A honra de um filho deve ser tornar-se independente da ajuda dos pais ao ponto de poder auxiliá-los quando eles porventura precisarem dele. O mesmo cabe no relacionamento com os demais parentes. Não é à toa que o cunhado encostado, “na aba”, tenha ganho uma má fama. A Bíblia dá a seguinte recomendação para quem anda se encostando e se esquivando do trabalho:

“…se alguém não quiser trabalhar, não coma também.”
2 Tessalonicenses 3:10

A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.”
2 Thess. 3.12

Naturalmente, existem situações e contratempos em que podemos precisar contar com a ajuda de parentes, para nos dar a chance de nos levantar e estruturar novamente. Quando isto ocorre é uma grande demonstração de amor e deve ser recebido como tal.

No entanto, não podemos nos acomodar em contar continuamente com a ajuda de parentes. É importante fazer todo esforço, para num espaço de tempo breve, poder dar conta das próprias despesas, inclusive aceitar fazer cortes nos gastos e mudanças no estilo de vida para refletir as possibilidades reais.

Isto também diz respeito aos avôs, que estão ativos e capazes de cuidarem de si. Filhos não devem ser pressionados a ajudarem os pais aposentados, que por falta de controle tenham incorrido em dívidas ou que almejem alcançar um padrão de vida que não condiz com os seus rendimentos, por meio das posses de um filho. Isto é diferente de um avô idoso que devido a limitações físicas e de saúde, necessite de cuidados e potencialmente da ajuda financeira dos filhos.

Ser um bom hóspede inclui instalar um “desconfiômetro”

Existe limite para tudo, inclusive para a hospitalidade que se deva receber. Existe um ditado engraçado que diz “receber visitas é uma alegria e vê-los partir é uma alegria ainda maior”. Faz bem, quem se lembra disso ao aceitar um convite para passar uns dias na casa de algum parente, fazendo de tudo para ser uma visita flexível e pouco exigente. Desenvolver um “desconfiômetro”, para perceber quando está incomodando, é tarefa importante do processo de amadurecimento de qualquer um.

Limites no processo decisório e nas funções na família extensa

Limites claros também precisam ser empregados quando se trata de como decisões são tomadas nos assuntos internos de cada família.

Mesmo um casal recém-casado e sem muita experiência, tem o direito de tomar as suas próprias decisões sem intromissão dos pais de qualquer lado.

Entre pais e filhos, deve existir um limite que impede os filhos de assumir a função dos pais, fazendo exigências descabidas e dos pais, de encarregar os filhos de responsabilidades que não são deles, como assumir os cuidados constantes por irmãos menores, prejudicando as suas possibilidades de estudar.

Quando você sente que os limites estão sendo desrespeitados, como no caso de sugestões frequentes e insistentes da parte de avôs quanto a educação dos seus filhos por exemplo, provavelmente a melhor maneira de lidar com a situação será ouvir as sugestões e casualmente acrescentar um comentário do tipo: “Obrigada por me dar o seu ponto de vista. Eu tenho consciência de ser responsável pela educação do Fulaninho e procuro fazer o melhor que posso. Se por acaso, não concordar com a minha forma de fazer as coisas, peço que mesmo assim me permita aprender com os meus próprios erros e tomar as minhas próprias decisões”.

4. É preciso investir tempo e esforços em nutrir os relacionamentos

Às vezes, os parentes que moram distantes uns dos outros, pela dificuldade que enfrentam para se encontrar, valorizam mais o tempo que podem passar juntos. Quando existe facilidade para fazer uma visita e os contatos casuais são frequentes, pode paradoxalmente, ser mais difícil perceber que é importante reservar tempo para conversar, saber o que se passa com o outro e demonstrar cuidado.

Conhecer alguém de verdade é mais do que saber o que está acontecendo na sua vida, é saber o que estes acontecimentos significam para ela. Chegar perto de alguém vai além de conhecer os desafios da sua vida, é sentir o que ela sente e acompanhar os seus pensamentos. Criar laços afetivos não se resume a passar bons momentos juntos, mas significa estar disposta a continuar ao lado deste alguém nos seus momentos mais difíceis.

Criar laços afetivos não se resume a passar bons momentos juntos, mas significa estar disposta a continuar ao lado deste alguém nos seus momentos mais difíceis.

Para desenvolver este tipo de relacionamento, precisamos estar dispostos a dedicar alguma atenção e algum tempo. Às vezes, um telefonema pode chegar numa hora em que queremos descansar. Outra hora, precisamos sair do nosso caminho para fazer um favor a alguém ou realizar uma visita numa tarde de domingo em que preferiríamos estar ocupados com as nossas coisas.

Precisamos tirar tempo para escrever e-mails ou cartas, fazer telefonemas, e planejar encontros. Será necessário nos organizar para lembrar dos aniversários, acompanhar um idoso na sua consulta médica, ligar para saber se o resfriado melhorou.

Temos a oportunidade de experimentar muito mais do que a vida oferece por meio dos nossos relacionamentos do que se nós nos isolamos e vivemos restritos à nossa própria história. Quando conscientemente escolhemos criar memórias e marcar a vida das pessoas da nossa família extensa, estamos construindo um legado familiar, uma herança cultural que demonstra para as crianças e jovens da família os nossos valores e o que nós escolhemos representar na vida um do outro.

Você tomou alguma decisão sobre os seus relacionamentos com parentes à partir da leitura deste artigo? Deixe seu comentário abaixo. Aguardo para saber o que foi importante para você.

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